Ilusão e Memória Selectiva por Tomé Moreira

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No último post referi que o poker é um jogo simples e fácil de aprender. De facto, penso que em menos de meia hora consigo explicar as regras a quem nunca tenha jogado. Mas o poker tem ainda, como característica, algo muito próprio. Para quem aprendeu as regras e joga há pouco tempo, é natural a sensação de evolução rápida e, de facto, está a aprender algo novo a cada mão que passa. Essa sensação é de tal forma vincada que pode surgir mesmo alguma euforia juntamente com um falso sentimento de domínio do jogo. Isto não se traduz necessariamente em qualquer tipo de ganho e aliás, o sentimento referido poderia até ser desafiado quando os resultados não correspondem às expectativas, mas isso nem sempre acontece. A razão é que, consciente ou inconscientemente, tenderemos a atribuir os nossos insucessos à falta de sorte.

Quem tem sorte num torneio?

Este parágrafo inicial deverá ter sido algo confuso para alguns, mas vou ilustrar com um exemplo e penso que tudo se esclarecerá. Imaginemos um torneio em que participam algumas centenas de jogadores. Uns perdem cedo e dentro de esse grupo alguns caem em situações em que estão atrás, mas que consideram que não puderam largar as mãos. Outros porém, partem de situações em que estavam à frente, mas acabaram por perder. Todo este grupo foi manifestamente bafejado pelo azar.

Agora, atentemos aos jogadores que não perdem cedo. Estes, por sorte ou mérito melhoram as suas “stacks” (quantidade de fichas) até que, eventualmente, acabam por perder por uma das situações referidas ao primeiro grupo. Podem até ter tido algumas situações em que a sorte esteve do seu lado, mas apenas recordarão as situações mais marcantes e essas referir-se-ão às situações em que tiveram azar. Resultado final, a esmagadora maioria dos jogadores do nosso torneio juram a pés juntos que tiveram um azar tremendo. Até posso ir mais além e referir que, salvo raras e saudáveis excepções, todos tiveram azar no torneio, tirando o vencedor. A responsabilidade deste efeito tem um nome. Chama-se memória selectiva.

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Perigos da memória selectiva

A memória selectiva tem o condão de nos equilibrar emocionalmente a curto prazo bloqueando as experiências mais penosas. No entanto, a médio/longo prazo, as consequências podem ser bastante más.

Voltando ao poker, a memória selectiva tem como efeito imediato o facto de impedir uma correcta análise do nosso jogo uma vez que a nossa mente, pura e simplesmente, esqueceu uma série de dados determinantes. Depois, surge um excesso de confiança que irá incapacitar uma avaliação assertiva do nosso valor. Como resultante, ambos os factores serão um entrave à evolução do jogador de poker e, sem os devidos cuidados podemos “encalhar” o nosso jogo e incorrer em erros sucessivos.

Um exemplo

Fugindo um pouco à abordagem teórica e ilustrando com um exemplo prático… É comum ouvirmos a clássica queixinha de corredor do “a mim nunca me bate”. Isto aplica-se tanto a flush draws, como a pares, como a outras situações. Mas vejamos uma outra situação bem típica: o “AK”.

Para os mais leigos, AK (Ás Rei) é uma das mãos mais fortes em Poker Hold’em, apenas superada claramente por 2 mãos (AA e KK). Perante todas as outras, estatisticamente, AK tem, pelo menos uma expectativa de ganho próxima dos 50%. No entanto, esta mão é considerada, por vários autores, uma drawing hand, uma vez que, teoricamente, só assumirá um valor relevante, se sair um Ás ou um Rei para a mesa. Resultado, é comum ouvirmos dizer, “perco sempre com AK” e ainda “os meus pares nunca aguentam contra AK”. Dizer isto, por si só, é implicação do que foi referido anteriormente não representa qualquer problema, mas a verdadeira questão surge quando o discurso muda para “eu já nem subo as apostas, já sei que não vai bater…”. E aqui está tudo estragado!

Até podemos ter perdido a últimas 2, 5, 10 ou 50 vezes com AK, mas não é por isso que deixa de ser estatisticamente rentável (num abordagem a longo prazo – a correcta), jogar a mão de um forma mais agressiva.

Já agora, a título de curiosidade e sem pretender baralhar o exposto, AK é até a mão responsável por mais eliminações nos torneios, tipicamente com bons jogadores. Isso tem outra razão e não colide em nada com o que foi dito anteriormente, aliás até reforça porque todos os bons jogadores conhecem a necessidade de jogar AK agressivamente. Simplesmente, a mão não vai ganhar sempre.

Como evitar a memória selectiva

Com a prática, vamos aprendendo a “domar” a selectividade da nossa memória e a assumirmos análises bem mais realistas. Mas, mesmo para os menos preparados existem bons remédios. No poker online, há já uma grande quantidade de programas que constroem bases de dados com todas as nossas jogadas e permitem análises detalhadas das mais diversas situações. É mesmo aconselhável começarmos por adquirir algo do género. Cuidado que alguns estão mais preparados para algumas disciplinas e descuram outras. Curiosamente, uma das mais recentes novidades destes softwares é um indicador chamado “EV” que mostra se estamos a obter resultados acima ou abaixo do esperado :-)

Relativamente a jogo offline, as coisas são mais complicadas, mas uma boa prática será utilizar um bloquinho de notas e ir apontando. No final do torneio, poderemos analisar e até discutir com os amigos as diferentes jogadas e tirar conclusões sensatas.

Tomé tcmoreira Moreira jogador profissional da Betfair Poker

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