Como ser um “prodígio no poker” por Tomé Moreira

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Vim para o portátil que uso para escrever e, antes de começar a “teclar” sobre o tema que tinha em mente, abri meia dúzia de sites para ver as últimas notícias como sempre e… voilá, tema do momento: José, o novo prodígio português do poker. Tanta celeuma que decidi pôr-me a par: li o post do seu blog e, de seguida, ouvi a entrevista com atenção. Entretanto, coincidência ou não, fui abordado sobre o que achava sobre o tema. Bem, na verdade, os termos das abordagens são mais se eu acredito ou não na história.

Já agora, e porque vou aproveitar para abordar algumas ideias… o outro tema fica para a próxima e aqui vai o que penso sobre isto.

Quem é o José?

Para quem não sabe, o José Macedo é um rapaz de 18 anos que começou a jogar poker há pouco mais de 1 ano e que apresenta ganhos estimados em 2,5 milhões de dólares. As dúvidas surgem porque, para além de ser uma evolução extremamente rara (única em Portugal), o José possuiu, supostamente, várias contas, o que torna a confirmação dos números complicada. Agravante ainda de ser um desconhecido que agora resolveu aparecer depois de alguém divulgar a história num fórum.

Em primeiro lugar, e respondendo à pergunta mais em voga: eu acredito. E a razão poderia ser tão simples quanto esta: não tenho porque não acreditar. Na verdade, ouvi atentamente o José e pareceu-me um rapaz com a cabeça no lugar, principalmente para alguém com 18 anos. Depois, a história de vida que relata contribuiu certamente para uma formação de um carácter suficientemente vincado para tornar o feito perfeitamente possível. E resumindo, é a prova das máximas que tenho vindo a defender. A aptidão e o sucesso no poker dificilmente nasce nas árvores e não acredito em pré-destinados. O sucesso tem 2 máximas: vontade de aprender/evoluir e muita dedicação. O José não se cansa de indicar estes factores como determinantes para os seus resultados e, por isso… Parabéns José!

Mas, se estas razões não me chegassem, descobri que uma das pessoas a quem dou actualmente coaching, conhece o José e até lhe deu umas luzes.

Objectivos no poker

Já aqui ramifiquei 2 formas de abordagem do poker. No post “o céu é o limite”, falei de 2 tipos de jogadores: “grinders” e “shooters”. Eu assumo-me claramente como “grinder” e a razão é simples: daqui a um par de meses vou ser pai de 2 filhos, tenho imensas responsabilidades e tenho de preservar a minha estabilidade fazendo os possíveis para contornar toda a volatilidade que esta actividade pressupõe. Por estas razões, nunca esteve nas minhas prioridades, subir níveis. Agora, se eu tivesse 18 anos, muito tempo, poucas responsabilidades e a adrenalina a inundar-me o sangue, a minha abordagem seria garantidamente diferente.

É mau e errado? Claro que não. São formas diferentes de ver as coisas e nenhuma é mais correcta que a outra. No entanto, ambas pressupõem as mesmas máximas: disciplina, equilíbrio, auto-controlo, gestão, vontade e muita perseverança.

A cada mês que passa, tenho mais a convicção de que o trabalho duro é tudo no poker. No projecto de coaching que estou a levar a cabo já vi um pouco de tudo: pessoas a conseguirem suplantar as notórias limitações iniciais e outras com boas bases e formações a ficarem para trás por falta de dedicação. Por isto, não corroboro com o maior argumento para as dúvidas da história do José que é: estes números são “runnar” bem demais. Acho que, neste caso, o José é mesmo um prodígio, porque a dedicação e evolução dele foi algo mesmo só ao alcance de alguém que escolheu os métodos correctos e se dedicou sem limites. Agora, porque nós não o conseguimos fazer, não quer dizer que outros o não consigam.

O futuro

Agora vou falar de um tema que considero bastante sensível e que talvez desenvolva num próximo post. Eu tenho uma teoria para o futuro do poker. Consigo fundamentá-la firmemente mas não o vou fazer aqui. Mas, a competitividade actual do poker, vai levar a que o futuro passe por treinar miúdos muito jovens (diria entre 14 a 16 anos) para o poker e estes se tornem nos grandes jogadores. E vamos ver verdadeiros campeões com 20, 24 anos. A razão principal está na tal dedicação e passo a exemplificar.

Recordo-me perfeitamente das verdadeiras maratonas a jogar jogos de estratégia ou Quake quando andava no secundário e faculdade. Na altura, o poker não existia, mas, se existisse, eu seria capaz de passar 14 a 16 horas diárias a jogar, porque cheguei a fazê-lo só para tentar ser campeão da faculdade de um qualquer jogo a feijões. Bem, hoje em dia, e apesar de ainda me considerar um jovem :) , é-me muito mais complicado passar as mesmas horas em frente a um computador, não só pelas responsabilidades que a minha vida pessoal exige, mas porque a paciência e concentração se vão desgastando com o tempo.

Obviamente ganho noutros campos, como a gestão, o auto-controlo e disciplina, e é por isso que acho que a fórmula de sucesso passa por ter alguém experiente a orientar devidamente jovens com potencial.

Mas isto levanta outras questões e é por isso que considero este tema sensível. O poker é um jogo para maiores de 18 e nesse aspecto, concordo plenamente. Com o tempo, questionei vários dogmas sociais e distancio-me de muitas ideias, mas neste ponto estou de acordo: os menores não devem jogar a dinheiro.

Maiores felicidades

O José é um excelente exemplo e uma lição para muita gente que se vende demais e estuda de menos. Alguns têm até já bons contratos, mas nem fazem ideia da distância que os separa dos rudimentos mais básicos da teoria do poker. Repito os meus parabéns pelo sucesso e desejo-lhe as maiores felicidades. Gostei de ouvir a possibilidade de fazer parceria com o Phounder, poderia ser uma dupla explosiva, porque o Phounder é daqueles putos que tem aquela intuição inata que também é necessária (e também se treina). De resto, como ele vai começar a jogar ao vivo, espero ter a oportunidade de estar com o José em breve aí numa mesa.

Tomé tcmoreira Moreira jogador profissional da Betfair Poker

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