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"Não sou milionário. Mas tenho tudo o que preciso" diz André Coimbra

André Coimbra
Sharelines
  • "Não sou milionário. Mas tenho tudo o que preciso" diz André Coimbra

A meio de Julho tínhamos publicado uma notícia sobre uma entrevista concedida por André Coimbra ao jornal O'JOGO. Na altura apenas tivemos acesso à imagem da entrevista publicada pelo jornal, mas agora a mesma apareceu num formato de mais fácil leitura.

Abaixo podem ler na íntegra a entrevista:

Diz que, no início, era horrível a jogar. "Não percebia nada daquilo." Mas foi a complexidade do jogo e a possibilidade de estar sempre a evoluir que fez com que André Coimbra se tornasse profissional de póquer, depois de terminar a faculdade em ciências de computadores. Aos 29 anos, doa todos os anos parte dos seus rendimentos para causas sociais. Joga online e só vai a casinos em caso de grandes competições. Detesta aquele barulho todo do "tlim tlim" das máquinas.

Em 2013 decidiu doar tudo o que ganhasse durante esse ano. Fez um depósito de 100 dólares, cerca de 92 euros, e no final de 2013 tinha 70 mil dólares em prémios de jogo - atualmente seriam 64 mil euros - , que foram diretos para a compra de uma carrinha de apoio a pessoas com deficiência mental, de uma instituição de Figueira de Lorvão, perto de Coimbra. Em 2014, André fez doações mais esporádicas. Este ano já contribuiu para ajudar as vítimas dos terremotos no Nepal; e a partir de agosto próximo, depois do seu casamento e lua de mel, vai lançar-se num novo projeto: jogar menos póquer e produzir conteúdos para ensinar os seus seguidores a jogar melhor.

Porque teve a necessidade de começar a doar parte dos seus rendimentos?

Tinha lido num livro que a melhor forma de enriquecer era ajudar as outras pessoas. Quanto mais pessoas conseguirmos ajudar mais vamos enriquecer.

Refere-se a dinheiro e bens materiais ou a um enriquecimento interior?

A ambos. As pessoas mais ricas do mundo são as que acabam por ter um impacto mais positivo num maior número de pessoas. Bill Gates é um exemplo. Se ajudarmos as outras pessoas, elas também vão dar-nos algum tipo de retorno. Se ajudarmos uma pessoa e ela nos der um euro, muitas pessoas já vai dar muito dinheiro. O livro aconselhava a darmos 10% do que ganhávamos para solidariedade, caso tivéssemos essa possibilidade. Comecei a fazê-lo em 2011 e 2012.

Como escolhe a quem doar?

Isso dá um bocadinho de trabalho, não é fácil, a minha mãe é assistente social e pedi-lhe ajuda. Eu uso o meu tempo para ganhar dinheiro. A minha mãe usa o tempo dela a ver onde vamos gastar esse dinheiro com solidariedade. Prefiro sempre dar uma coisa que possa ajudar a médio/longo prazo. Por exemplo, se desse dinheiro aos sem-abrigo, se calhar iriam gastá-lo logo. Eu preferia ajudá-los a reintegrarem-se na sociedade, para depois serem auto-suficientes.

Essa teoria de que enriquecemos à proporção do que ajudamos soa um pouco interesseira...

Percebo o que está a dizer, mas as pessoas ajudam mais que não seja para se sentirem bem. E, portanto, podemos dizer que tudo o que fazemos na vida é de forma interesseira e não chegamos a lado nenhum. Se nos sentimos bem a ajudar as outras pessoas devemos continuar a fazê-lo. Depois do casamento, quando voltar ao trabalho, vou dedicar-me mais a produzir conteúdos para os meus seguidores. Quero ajudá-los a melhorar no póquer e a conseguirem mais para eles próprios.

Que tipo de conteúdos?

Vídeos de estratégia, onde explico como penso determinada jogada, como podem fazer para melhorar determinado aspeto. Serão uma espécie de aulas. Vai ser uma forma de consolidar o que tenho estado a fazer ao longo destes anos.

Quando é que começou a jogar?

Há cerca de dez anos. Eu já jogava "Magic: The Gathering" (jogo de cartas colecionáveis) e ouvi dizer que alguns jogadores muito bons do Magic estavam a ter bons resultados no póquer. Fiquei curioso e resolvi experimentar. Ao início não percebia nada daquilo, era horrível, fiz dois ou três depósitos que não correram muito bem. Mas é assim que se aprende! Peguei em livros, comecei a frequentar uns fóruns, aos poucos fui melhorando. Achei o jogo interessante, porque tem muita profundidade. Uma pessoa nunca sabe tudo. Nunca! Para cada jogada há sempre uma contrajogada. O maior desafio é poder ser-se melhor no dia seguinte do que no dia anterior. Dei um salto muito grande quando comecei a ver vídeos de estratégia. »

Estudou o quê?

Sou licenciado em ciência de computadores.

Sem a base de matemática é possível jogar póquer como deve ser?

Claro que sim. Ajuda se a pessoa tiver um bom raciocínio lógico. E intuição também. O mais importante é a pessoa ter calma, paciência e não esperar resultados imediatos. Quanto mais a pessoa adiar a necessidade de se sentir bem, melhores vão ser os resultados.

Persistência e paciência são tão importantes como a inteligência?

Talvez até mais importantes a nível de resultados.

Em pequeno jogava às cartas?

Quando estava de férias, ficava até muito tarde a jogar Monopólio ou Risco com os meus avôs. Sempre adorei jogos de estratégia.

Gostava de ir jogar à bola para a rua?

Jogava com os colegas na escola. Pratiquei basquetebol e atualmente vou ao ginásio quatro vezes por semana. O ano passado fiz uma meia-maratona. Hoje os jogadores de póquer dão bastante importância a estar bem fisicamente. É importante para poder estar muitas horas concentrado. Tem-se cada vez mais atenção ao exercício, à alimentação e ao sono.

Costuma jogar em casinos?

Não gosto do ambiente dos casinos em geral, é mais pesado.

Como assim?

Já fui jogar campeonatos a casinos e não me agrada. Lembro-me que em Las Vegas estava sempre a ouvir aquele barulho do "tlim tlim". Quando tenho horas de lazer não é, definitivamente, aquilo que procuro.

O póquer pode tornar-se uma adição?

O póquer não é muito viciante. Quem se vicia em jogos procura um prazer mais imediato. O póquer demora tempo, os níveis de dopamina no cérebro não disparam como em outras atividades. Um torneio pode demorar oito horas. Há uma percentagem mínima de pessoas viciadas no póquer a comparar com outros jogos.

Quando percebeu que podia fazer do póquer a sua profissão?

No 3.º ano da faculdade. Jogava em part-time e conseguia tirar um salário mínimo. Pensei, então, que se pudesse jogar a tempo inteiro, iria ganhar bastante mais dinheiro. A minha mãe aconselhou-me a terminar o curso e foi o que fiz. Depois fiquei um ano à experiência a jogar a tempo inteiro. Se corresse mal ia arranjar emprego na área da informática. Não foi preciso.

Qual o maior prémio monetário que já ganhou?

O torneio mais caro em que já joguei foi de 10 mil dólares [cerca de 9000 euros] e o prémio maior foi de 40 ou 44 mil dólares [36,2 ou 39,9 mil euros], no Mundial de 2010, em Las Vegas. Mas recomendo às pessoas não investirem dinheiro enquanto não souberem jogar bem, não vale a pena meterem-se em grandes aventuras.

Não é preciso investir muito para começar a ganhar dinheiro a sério?

Ser-se profissional do póquer é uma coisa que demora muito tempo. Estou a falar de um ano ou dois de investimento de trabalho. É quase como tirar um curso. À medida que vamos subindo de nível, aumenta também a dificuldade dos jogos. Mas todas as salas têm torneios de baixo custo ou em que não é preciso sequer pagar. No meu caso, a certa altura ganhei 13 mil dólares [11,8 mil euros] num torneio online com milhares de pessoas, o que seria difícil voltar a acontecer. Então pensei que queria um rendimento mais regular. Inscrevi-me numa escola, comecei a estudar torneios só de uma mesa, com nove jogadores, em que os resultados são muito mais consistentes e estáveis, não estão tão dependentes da sorte. Não ganhei o máximo que poderia ganhar, mas tive sempre um rendimento estável.

É rico aos 29 anos? Fica-se rico a jogar póquer?

Vivo confortavelmente e sinto-me bem. Moro num apartamento alugado, o meu carro é um Yaris em segunda mão. Não sou uma pessoa que viva com muitos bens materiais, para mim o mais importante é ter saúde e um rendimento que me garanta o futuro. Não faço grandes despesas. Isso é ser rico? Não tenho um milhão de euros, nem nada do género, se é isso que querem saber. Não sou milionário, mas tenho tudo o que preciso.

Como é o seu dia de trabalho?

Acordo por volta das 10h00, estudo algumas horas. A seguir ao almoço durmo uma sesta, pois ajuda-me imenso a estar concentrado. Para se competir a num nível elevado, é preciso jogar entre seis a oito horas por dia e ainda estudar os adversários entre uma a três horas por dia. Dá trabalho e é cansativo.

Consegue disciplinar-se? Afinal não tem ninguém a mandar em si...

É um dos maiores desafios da profissão. Desde a Revolução Industrial que somos educados na escola para sermos funcionários. Não nos ensinam a fazer um horário ou a gerir dinheiro. Quando se é jogador de póquer profissional, tem de se gerir o horário e o dinheiro, foi uma coisa que fui aprendendo ao longo dos anos, mas é muito difícil. Há jogadores que são muito bons, mas depois não têm dinheiro na conta para aguentarem as alturas piores e têm de se sujeitar a trabalhar para outros, que metem o dinheiro por eles e ficam com uma percentagem.

Como gere normalmente as suas férias?

Tento trabalhar intensamente durante dois meses e depois descansar duas semanas. Quer dizer, tento ou deveria tentar. Às vezes esqueço-me ou não posso [risos].

SAIBA QUE

Em Portugal ser jogador de póquer não é uma profissão oficialmente reconhecida. "Cheguei a falar com o meu contabilista e ele disse-me que não era possível apresentar os meus rendimentos do póquer. Ninguém conseguiu até agora pagar impostos", afirma André Coimbra que acabou por abrir atividade como empresário em nome individual, com alguns investimentos imobiliários para "descontar para a Segurança Social e um dia ter algum tipo de reforma". "Prefiro ter um pouco mais de segurança do que estar a competir a um nível mais alto. Prefiro mais estabilidade", comenta, esclarecendo ainda que as salas de póquer online costumam ser rápidas a fazer chegar os prémios às contas bancárias dos vencedores. "Podem também mandar cheque para casa. Verificam se não há nada ilegal, e dois ou três dias depois o dinheiro está na conta bancária."

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O máximo de tempo consecutivo que André Coimbra esteve em frente ao computador a jogar foi 14 horas, em 2013. Durante esse ano desafiou-se a participar em torneios longos (têm intervalos de 5 minutos a cada hora), mas atualmente prefere mais curtos, que duram entre 10 a 20 minutos. André assume que é difícil manter a concentração por muitas horas seguidas. "Consigo estar mais ou menos oito horas concentrado. É o meu limite", afirma. Quando termina o dia de trabalho, está "mentalmente exausto". "A seguir o que preciso é ver as Kardashians na televisão [risos], o que encontrar de mais idiota. Também posso ir ao cinema, jantar fora. Eu e a minha namorada tentamos desligar quando não estamos a jogar póquer."

PAUSA PARA CASAR COM UMA JOGADORA GREGA

André Coimbra casa-se este mês com Katerina, uma professora de francês grega que conheceu em 2006, quando foi a Atenas jogar um torneio de "Magic: The Gathering". "De início ela nem gostou muito de mim, porque eu estava a falar português com uns amigos enquanto jogava com ela", recorda, divertido. "Na altura usava-se o hi5 e começámos a falar pela Internet", acrescentou, sem precisar de contar mais sobre a história de amor, que transformou por completo a vida da agora noiva. Katerina veio morar para Portugal e, não conseguindo encontrar trabalho na sua área, começou a aprender a jogar póquer com André, obteve bons resultados, e agora também é profissional, partilhando com o namorado o mesmo escritório da casa que têm alugada em Lisboa.

(Entrevista publicada na revista J a 12 de julho de 2015)

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